11 de dezembro de 2011

Indivíduos

O Céu Sobre os Ombros
Sérgio Borges, Brasil, 2010 

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=-lrU8yLQdMw&feature

O Filme “O Céu Sobre os Ombros”, de Sérgio Borges, conta a história de três pessoas que não se conhecem e vivem numa mesma cidade, e ambas compartilham de aspectos relacionados à cotidianidade, exoticidade e marginalidade.

Everlyn é uma travesti que fez mestrado sobre uma pessoa hermafrodita do século XIX. Dá aulas de sexualidade e se prostitui. Possui um amor virtual.

 
Fonte: Site oficial

Murari é um devoto da religião Hare Krishna e do time de futebol do Atlético Mineiro. Ex-pichador que se tornou monge.

 Fonte: Site oficial

Lwei é um africano descendente de portugueses que escreve vários livros ao mesmo tempo, sem chegar ao final de nenhum. Cogita suicídio.

 

Três pessoas tão diferentes que numa análise inicial, atrapalhariam um estudo antropológico de uma sociedade, Visto que Lwei passa grande parte de seu tempo sem usar roupas, Everlyn vive num espaço que se divide entre mulheres e homens e ela não é nenhuma das duas coisas, e Murari tenta se encaixar entre a realidade da sociedade em que vive e a realidade espiritual que participa. 

Mas ao definir quais são os passos de uma análise antropológica em “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, Malinowski fala sobre a importância de, após um estudo antropológico geral, é importante também estudar o indivíduo, o que ele pensa sobre a sua sociedade, como ela interfere na sua vida e provoca posicionamentos psicológicos. 

Acredito que é exatamente esse passo de Malinowski que Sérgio Borges segue. O filme não uniu essas três pessoas tão diferentes a toa. Apesar das diferenças, os três são pessoas em busca da sua identidade social, de um espaço, uma adequação, que passa inicialmente pela individualidade mas, como diria Max Weber, a individualidade sem uma consciência coletiva levaria à anomia. E mesmo que Lwei fale em suicídio, até mesmo ele passa seu tempo cultivando seu aspecto coletivo. (ele tem um filho deficiente que o visita com frequência e se encontra com amigos que os considera muito.) 

Everlyn é puro desafio da sociedade em que vive, mas é assustadoramente uma pessoa que busca integração social. Enquanto a sociedade em que vivemos condena o homossexualismo,a mudança de sexo e a prostituição, Everlyn estudou até o mestrado e defende intelectualmente todas as suas “abominações” com argumentos que cabem à nossa cultura, pois sua missão é se encaixar como uma mulher casada nessa sociedade. Se tivesse nascido do sexo feminino, Everlyn não teria toda a sua grandiosidade de lutar para ser “normal”. 

Murari, por sua vez, parece menos determinado que os outros dois “personagens”, pois parece ser passivo diante da dualidade “ser bem sucedido na vida” e “diluição do ego”. Murari apenas aceita e vive. 

Por fim, o filme nos faz considerar o quanto a sociedade em que vivemos é diversa, o quanto a individualidade invade a coletividade. E acredito que a maior importância dessa percepção é a busca de um reajuste cultural, que diminua a intolerância já incabível aos dias de hoje em que a individualidade se tornou muito mais expressiva ao longo do tempo.

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