Zona do Crime
Rodrigo Plá, México, 2007
Uma cidade partida em duas. De um lado, o conforto de uma vida luxuosa daqueles que moram num condomínio fortificado. Do outro, para além dos muros e das grades eletrificadas, uma imensidão de casebres assinala um contraste tão marcante que permite depreender uma fragmentação do urbano não apenas espacial, mas, sobretudo, social. Dirigido por Rodrigo Plá, o longa-metragem “Zona do Crime” usa como argumento a cultura dos complexos residenciais fechados para discutir a falência de valores, a intolerância ao outro e a violência nas metrópoles. Baseada num conto homônimo escrito por Laura Santullo, esposa do diretor, a história se passa na Cidade do México, embora possa ser facilmente transposta para muitas outras cidades contemporâneas.
Fonte: MovieMail
“La Zona” é um condomínio monitorado por câmeras de segurança e rodeado por favelas. Numa noite chuvosa, três jovens pobres invadem a propriedade e, ao tentar assaltar uma das residências, acabam assassinando a moradora. Após uma troca de tiros com os guardas do condomínio, Miguel (Alan Chávez), de apenas 16 anos, é o único que consegue escapar vivo e esconder-se. Frente ao sumiço do garoto e ao perigo que representa para as famílias que ali vivem, os condôminos reúnem-se para resolver o que fazer, divididos entre chamar a polícia ou capturar por conta própria o assaltante. Decididos a impedir que o incidente comprometa a autonomia dada ao condomínio pelo Estado, os moradores iniciam as buscas por Miguel, agora prisioneiro de um local que parecia ser a promessa da proteção.
Fonte: MovieMail
Desde a sequência inicial, é perceptível a disparidade entre duas realidades limítrofes. Os vidros do carro impecavelmente novo que trafega pelas ruas de “La Zona” refletem uma cidade atrás dos muros, afastada pelos arames farpados. A fotografia contrastante ajuda a reforçar as diferenças entre esses dois mundos. As imagens limpas e higiênicas do condomínio opõem-se a uma favela suja e escura, que enclausura o núcleo de abundância como se estivesse prestes a fagocitá-lo. A barreira de concreto ergue-se, então, como instrumento de segregação, motivado pelo medo do crime e da violência lá fora. Por meio de câmeras de vigilância, espreita-se atentamente qualquer tentativa de “contaminação”. Da escola ao cemitério, os moradores têm sua própria cidade sitiada.
A busca por alternativas privadas de segurança parece surgir como consequência da descrença nas instituições oficiais encarregadas de manter a ordem. Para os moradores, uma polícia corrupta e um sistema judiciário incompetente são incapazes de resolucionar os conflitos e as tensões urbanas. Por isso, tomam para si a tarefa de manter seu reduto intocável. Quando os guardas armados e os dispositivos de vigilância mostram-se insuficientes, é preciso fazer justiça com as próprias mãos e “caçar” o culpado ─ ainda que essa culpa lhe seja incontestavelmente imposta, tolhendo o direito à voz e a um julgamento justo. Por meio de um conselho deliberativo, resolvem omitir a polícia para o bem de todos. Afinal, “La Zona” tem as próprias regras e a própria força de repressão contra as impurezas que ali tentam penetrar. A justificativa vem na forma de legítima defesa. A culpa está sempre do lado de fora.
As poucas oportunidades que Miguel tem para contar sua versão dos fatos surgem quando o jovem conhece Alejandro (Daniel Tovar) ao esconder-se no porão de sua casa. É esse, enfim, o momento de humanização do personagem. Em contraponto aos amigos, que reproduzem o discurso de condenação a toda e qualquer alteridade divergente daquela sociedade elitista, Alejandro, também de 16 anos, descobre em Miguel uma realidade que, apesar de diferente, não é inimiga. Ao ouvir o que realmente aconteceu na noite chuvosa em que os três garotos invadiram “La Zona”, o adolescente tem seu primeiro contato com o outro mundo, passando a questionar os valores que lhe são incutidos desde criança: em lugar da tolerância, a discriminação e o distanciamento social devem ser as soluções em prol de uma vida segura.
Aconselhado por Alejandro, Miguel tenta, em vão, fugir do condomínio, deparando-se com cercas e muros por todos os cantos. “La Zona” é sua prisão, onde será julgado e condenado. O menino admite a culpa. Roubou, mas não matou ninguém. Talvez mereça ir para a cadeia, mas não deseja o mesmo destino que os dois amigos tiveram, cujos corpos foram jogados no lixo, como se fossem dejetos poluentes. No auge de seu desespero, corre atrás do carro da polícia em busca de ajuda. No entanto, o mesmo sistema policial, a princípio, taxado de ineficaz serve, agora, aos propósitos dos moradores. Após comprar o descaso das autoridades, eles estão livres para fazer a própria justiça, negando ao garoto qualquer chance de regeneração. O comandante Rigoberto (Mario Zaragoza), última esperança nesse sistema corrompido, ainda tenta interceder por Miguel, pois “ele é só uma criança”, mas acaba vencido por forças mais poderosas. “Salve-o agora e teremos um assassino”, ordena o delegado corrupto, que recebeu dinheiro em troca de silêncio.
A sequência final desconstrói, por completo, o discurso de segurança emoldurado ao longo do filme, transformando-o num discurso de violência. Perseguido pelos moradores, Miguel é linchado até a morte. Frente à falência do Estado, a violência aparece justificada pela segurança. Mata-se em nome da proteção e da justiça ─ uma justiça deturpada pelos valores do grupo dominante. Supõe-se uma culpa, que não precisa ser comprovada para fundamentar a intolerância ao outro. “La Zona”, construída como barreira ao perigo, acaba por tornar-se a epítome da brutalidade. Talvez Alejandro seja um dos únicos a conseguir abolir as fronteiras da segregação. Após o episódio, o jovem procura o corpo de Miguel no lixo, descartado tal quais seus amigos. Leva-o até um cemitério fora do condomínio na tentativa de lhe oferecer alguma dignidade. A narrativa, que se desenvolve quase inteiramente dentro do complexo residencial, ganha as ruas da favela.
A cidade fragmentada de “Zona do Crime” trabalha as tensões urbanas em torno do medo e da negação do outro. A segregação espacial e social tornou-se um traço característico do comportamento humano nas metrópoles, levando a um abandono da esfera pública em prol de uma vida privada mais segura. O muro que rodeia “La Zona” serve, assim, de metáfora para as barreiras erguidas diariamente nos centros urbanos, sejam elas reais ou imaginárias. O enclave fortificado reflete o enfraquecimento das relações interpessoais e a intolerância do homem contemporâneo. Como método de combate às ameaças, uma cidade vigiada insinua-se dentro de uma megacidade multicultural, na tentativa de ordem e controle. No entanto, o medo que se tem pelo outro produz muito mais do que a exclusão. Conduz à desestabilização de valores e à violência. No filme, o conflito final é um combate a toda e qualquer heterogeneidade capaz de “contaminar” uma minoria que se vê como homogênea.
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