Crime Delicado
Beto Brant, Brasil, 2005
Denso e abrangente é Crime Delicado (Brasil, 2005), filme de Beto Brant baseado em romance de Sérgio Sant'Anna, de título semelhante (a única diferença é o artigo definido “um” que precede o nome do livro). A meu ver, este longa possibilita diversas interpretações, pois em nenhum momento ele cria verdades ou entrega informações precisas ao espectador. Portanto, neste texto irei relatar minhas impressões e idéias acerca das ambigüidades que esta magnífica obra audiovisual nos trás.
Como primeiro tema do filme, já presente no primeiro plano, está o jogo de poder que existe nas relações entre o homem e a mulher em nossa sociedade. Este primeiro plano é um cena teatral, que nos mostra uma freira falando sobre a libertação feminina. No plano seguinte, temos uma mulher participando de um ritual sadomasoquista, até que um psicanalista, seu marido talvez, entra em cena e condena tal ritual. Ao fazer isso, a mulher lhe acusa de traição, e a posição do psicanalista é a de tentar relativizar sua situação. Estes dois planos demonstram que o tema das relações do homem com a mulher estará presente durante todo o filme como um “jogo de poder”. Existem várias pequenas histórias que permeiam o longa que tem como centro esta relação: as peças teatrais, como esta do inicio; as três histórias que Antonio observa no bar (sendo que uma delas se trata de uma relação homossexual, porém com dois travestis representando a mulher); a relação de Antonio com a atriz; a relação do artista espanhol com Irene; a relação do artista com sua esposa; e a relação de Irene com Antonio.
Neste momento, posso voltar à diferenciação que fiz no inicio do texto sobre o título do livro com o do filme: ao retirar o artigo definido, a versão cinematográfica permite que ela seja interpretada como um filme que não fala somente de "um crime delicado“, mas de vários “crimes delicados” de nossa cultura. Dessa maneira, em cada uma dessas relações existe algum "crime delicado", seja ele moral ou real - mas o que está sempre em jogo é o que pode ou não ser considerado um crime dentro de nossa sociedade. Nas peças o crime é a traição e o exercício do poder masculino, mostrando sempre uma visão feminista do mundo (talvez seja por isso que Antonio não goste de nenhuma delas). Na primeira história do bar, a dos travestis, o crime poderia ser a prostituição. Na segunda, a conversa dos dois homens, é algo moral, talvez até religioso: um homem que se diz muito satisfeito com sua vida sexual, mas que se diz arrependido por que nunca teve filhos, ou seja, fez sempre sexo por prazer. Na terceira história do bar, há três crimes: a mulher, mesmo tendo namorado, olhar para outro homem; o namorado ficar completamente bêbado; e a mulher amar o homem, mesmo que ele a trate mal. Na relação de Antonio com a atriz, o crime é uma "prostituição moral": a troca de favores entre os dois se dando através do sexo. Na relação do artista com sua esposa há o "crime" da traição: o artista tem uma relação íntima com Irene, e também não acredita no amor (algo que fica implícito na conversa de Irene com Antonio no táxi). Na relação entre Irene e o artista há o crime do discurso como forma de poder: o (ab)uso de Irene como modelo para satisfazer os fetiches do espanhol. Por ultimo, temos a relação de Irene com Antonio onde há o "crime delicado" mais obvio e central do filme: o estupro.
Acredito que os dois últimos crimes sejam mais centrais e mereçam um debate mais aprofundado que os outros, por isso discorrerei sobre eles. O primeiro deles, que diz a respeito da relação entre Ines e o artista é bastante complexo: Ines possui uma deficiência física - não tem sua perna direita. Este fato nos induz a pensar que sua vida seja bastante difícil, que ela tenha sofrido preconceitos sociais, que tenha sido impedida de realizar algum desejo (como praticar um esporte ou dançar). Quando ela se torna uma modelo artística, vê uma possibilidade de ser importante, de ser o centro de uma obra, de ser o que ela nunca foi. Imaginamos que Ines aceite se submeter a qualquer situação para ser uma grande modelo, e é neste ponto que entra o papel do pintor espanhol. Para transformá-la em arte, os dois ficam nus e ele a pinta em um quadro onde estão supostamente fazendo sexo, quando na verdade não fizeram. Quando a obra fica pronta, ela chora, aparentemente por tristeza. Este choro pode ser interpretado assim: o pintor a “estuprou” moralmente, utilizando seu discurso artístico de autoridade social para justificar seu quadro. Esse discurso é explicitado ao final do filme, quando, olhando para a câmera, conta suas concepções sobre a arte. O espanhol diz que ela possui apenas uma deficiência, como todos os outros humanos, e que é somente isso; também diz que, ao estar nu pintando uma modelo também nua, os dois estão em posição de igualdade, pois os defeitos do artista e da modelo estão à mostra, como se quisesse despir os humanos dos aspectos culturais e sociais ques os atravessam. Esse discurso é, apesar de bonito, completamente falso, pois ele, por ser o produtor do olhar, tem mais poder que a modelo, podendo decidir o que quer ou não mostrar: em seu quadro é claro que Ines não possui uma perna, mas não se pode assumir que ele seja um idoso, que tenha cabelos brancos e pele enrugada; seu corpo é ainda pintado com indefinição, não se pode nem dizer que é ele que aparece no quadro, pois seu rosto não aparece. Ele ainda cria uma situação inexistente que é o sexo entre os dois. Mas, então, porque Irene não o denuncia e mostra pra todos que o pintor é um “estuprador” de sua moral? É fácil compreender suas motivações: mesmo não gostando, Irene se torna importante por estar neste quadro, é uma das poucas coisas que ela pode se destacar por não possuir uma perna, por isso que ela se sente tão ofendida por Antonio dizer que aquilo é somente pornografia. Se trata de dois julgamentos socio-morais de um mesmo ato, de uma mesma obra.
Já o segundo crime, que é o "crime delicado” que dá o nome ao livro, é o estupro. Supostamente Antonio estupra Ines, porém, apesar da cena ser mostrada, não é possível afirmar que ele realmente cometeu tal crime. Isso ocorre porque definir o que seria estupro é uma discussão que pode ser profunda e depende da ética pessoal e social de quem analisa o caso (é claro que se um sujeito obriga violentamente uma mulher a fazer sexo, há um estupro, mas não é esse o caso do filme). Na cena em que o crime pode ter acontecido, Ines e Antonio estavam discutindo sobre o quadro do espanhol, e ela pede para Antonio ir embora. Ele a pega pelo braço, a joga na cama, e inicia o ato sexual. Ela não grita, não faz nenhuma oposição verbal, talvez tenha havido oposição física, mas não se consegue saber o certo. Ele também não faz nenhuma ameaça verbal. Houve então estupro? Bom, se pensarmos pelo lado de Ines poderíamos dizer que ela estava assustada e não conseguiu gritar, ou tomar uma atitude maior, e de toda forma ela fez alguma oposição física; pensando pelo lado de Antonio, não ocorreu o crime, pois Ines não se opôs e ele não fez nenhuma ameaça. Quem vai julgar então o crime é o aparato legal do Estado, que é um indicador de certos valores e crenças culturais da sociedade. Só que, ao contrário das nossas expectativas, a decisão jurídica é omitida, fazendo com que o espectador reflita mais sobre o assunto e possa tirar suas próprias conclusões sobre o tema.
Outro assunto presente no filme é a relação do ser humano com suas deficiências, o tempo inteiro, Crime Delicado tenta exemplificar como temos dificuldade de apresentar nossos problemas para os outros. Isso é mostrado sob a perspectiva dos três personagens principais: a relação de Ines com a ausência de sua perna; a de Antonio com a solidão; e a de José Torres Campana com a velhice.
É bem claro na personagem de Ines sua dificuldade em lidar com a deficiência, ela se utiliza de uma perna mecânica, algo que mascara seu problema; ela se mostra bastante complexada com o fato de Antonio não dizer que a primeira coisa que reparou no seu corpo foi o defeito; para completar, em dificuldade em aceitar o quadro que explicita sua deficiência, pois, além de chorar, não tem coragem de visitar a exposição do espanhol. O final do filme mostra uma superação, por parte dela, com seu problema: ela vai à galeria onde está a pintura, deixa sua perna mecânica lá e vai embora, como se dissesse: “sou assim mesmo, e daí?”. Mas o que a leva a tomar tal atitude tão corajosa? Acredito que são vários os fatores: talvez perceber que Antonio gosta dela mesmo tendo uma deficiência (é sempre bom lembrar que a relação dela com o espanhol é fetichista, enquanto com Antonio é mais amorosa); talvez sua motivação seja o discurso do artista que diz que não ter uma perna não é nada demais, que o defeito é uma construção social - isso fica claro na seqüência em que Antonio e Ines tem uma relação íntima pela primeira vez, há dois planos que igualam a deficiência visual dele à física dela: ela precisa retirar suas muletas, e ele, os óculos.
Quanto a Antonio, ele é um sujeito solitário, despreendido da socidade, está sempre em um bar tomando whisky. Em nenhum momento aparece com algum amigo, e sua vida parece consistir em observar o mundo: assistir peças de teatros e observar a vida alheia. Ele é um sujeito sem atitude, é sempre ele que é convidado aos lugares, nunca conduz as conversas, é um personagem passivo (ele se assemelha muito com o espectador cinematográfico). Além disso, tem dificuldade de aceitar essa sua característica: oge da realidade com a bebida e não aceita que a atriz o chame de solitário. Contudo, Antonio também tenta superar seu problema: consegue ver que sempre viveu sua vida na terceira pessoa, e tenta passar a vivê-la na primeira; toma a atitude de ir à casa de Ines para conversar, e acaba cometendo o "crime delicado".
Já José Torres Campana possui uma relação diferente com seu problema: tem medo de morrer, mas nega isso. Em seu discurso do final do filme, parece ser um sujeito bem resolvido com a questão do envelhecimento, porém, o envelhecer é algo tão importante e tautológico em seu discurso que mostra como a morte é algo que o preocupa. Por outro lado, podemos dizer que ele é bem resolvido com essa condição inerente a todos mortais, pois consegue se expressar bem e tematizar através da arte aquilo que lho aflige.
De qualquer forma, o filme é repleto de ambiguidades culturais. Obriga-se que o espectador tome posição e formule suas teorias sobre cada personagem.