11 de dezembro de 2011

Culturas e Linguagens

Serras da Desordem 
Andrea Tonacci, Brasil, 2006 


O filme conta a história de um índio que se perde de sua famíla após um massacre. Durante dez anos, esse índio fica sozinho na mata, até encontrar um grupo de pessoas que o acolhe, seguido de algumas outras “transferências”.

O mais inovador do filme é que a história é real, e encenada pelo próprio índio Carapiru. Assim o filme não é apenas um relato factual, mas uma reinterpretação da história, pois foi reconstruída em um outro momento.

O índio conheceu grupos sociais totalmente diferentes do qual ele vivia, estranhou e causou estranhamentos diversos. Apesar de não ter apresentado nenhuma intenção de estudo antropológico, Carapiru conheceu esses grupos, conviveu com eles e tentou absorver os hábitos desses grupos, se tornando afetivamente importante para aquelas pessoas.


Contudo o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) tinham como missão retirar Carapiru desses convívios. O Índio passou um tempo numa casa de classe média urbana após essa “retirada”.

Após assistir o filme, é difícil debater o assunto sem entrar na discussão sobre o etnocentrismo. Vemos que os membros da cultura “civilizada” teimam em “civilizar” o índio. E quanto mais “civilizada”, maior é essa preocupação. Podemos acreditar que maior é o etnocentrismo.

Segundo Luiz Zanin, numa crítica do filme para o Estadão,

“uma cultura não “lê” a outra senão com os olhos do preconceito. Tudo o que se pode fazer é reconhecer o mistério do Outro e instalar-se na posição de simpatia em relação a ele. Colocar as emoções em sintonia, pois isso é o que quer dizer simpatia. A humanidade é una e diversa, e esse é o maior milagre de todos.”

A partir dessa visão, Andrea retrata a história e faz um trabalho antropológico desse encontro, que se torna um documentário de forma inovadora e conteúdo altamente interessante e cautelosamente denunciador.

A civilização e a barbárie

A Mulher Selvagem 
Lucky Mckee, EUA, 2011

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=nEKFeAYmN9c

Civilizar:
Tornar-se civil, educado.
Transmitir ou adquirir estado social e/ou cultural condizentes com o progresso alcançado no mundo contemporâneo.

Barbárie:
Estado ou condição de bárbaro, sem civilização, rude.
Fonte: Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa

Civilização e barbárie tornam-se conceitos intercambiáveis em “A Mulher Selvagem”, longa-metragem dirigido pelo norte-americano Lucky Mckee. De um lado, o homem branco, educado e patriarca. Do outro, a mulher de trejeitos animalescos, que se alimenta de peixe cru e dorme em cavernas. O encontro dessas duas realidades conduz a uma inversão de papeis ao revelar a selvageria escondida por trás da polidez do terno e gravata. A violência vai do tema à visualidade em um questionamento furioso acerca dos paradigmas de civilidade.

Fonte: Site oficial

A produção, baseada no romance escrito por Jack Ketchum e pelo diretor Lucky Mckee, desenvolve-se a partir do esfacelamento de uma família aparentemente normal. Em uma pequena cidade, o advogado Chris Cleek (Sean Bridgers) descobre que uma mulher selvagem (Pollyanna McIntosh) vive na floresta onde costuma caçar. Decidido a civilizá-la, Chris captura a estranha, mantendo-a prisioneira no porão de sua casa. Tratada como um animal de estimação, ela passa por sessões de tortura assistidas pela esposa e pelos três filhos do casal.

Em meio às tentativas de domesticação, a mulher, com os braços e as pernas amarrados, é lavada com água fria, vestida com saia e blusa e ensinada a comer com talheres. Rude, bruta e ignorante aos olhos da família, precisa aprender a reproduzir uma cultura que não lhe é natural, mesmo que para isso seja necessário valer-se da violência. Em uma das cenas, Cleek atira próximo ao ouvido da moça, após ela se negar a usar os talheres. Ao longo do filme, o personagem de Sean Bridgers revela-se a síntese da inversão de valores, mostrando-se ainda mais bárbaro do que a “selvagem”. Extremamente sádico e cruel, bate na esposa submissa, estupra a prisioneira e — possivelmente, já que Mckee não deixa isso claro — mantém relações incestuosas com a filha mais velha, que está grávida (não se sabe de quem). O filho, por sua vez, é a reprodução desse modelo de masculinidade, que aceita a brutalidade como intrínseca ao comportamento masculino e justifica toda e qualquer ação na base do machismo.

Fonte: Site oficial

A maior parte do filme estrutura-se diante da expectativa de libertação da personagem-título e a possibilidade de vingança caso consiga escapar. Há uma sensação constante de que o fim trágico (e sanguinolento) se aproxima. Talvez por representar a antítese dos demais personagens femininos, oprimidos e abusados, a protagonista acaba ganhando a empatia do espectador, frente ao modo como é tratada e o desejo de revanche. A sequência final leva ao ápice a discussão em torno do conceito de civilidade em uma sociedade que tem como bárbaros os não-civilizados. O discurso etnocêntrico do homem branco que se autodecreta superior e acha que pode incutir seu modo de vida no outro acaba totalmente desconstruído em sua própria crueldade e perversão, reduzindo-se ao primitivismo que tanto condena.

Ao diluir a dicotomia entre civilidade e barbárie, “A Mulher Selvagem” leva a repensar tais concepções. Talvez por isso, incomode tanto a alguns: na premiere do Festival de Sundance 2011, um homem na plateia levantou-se ofendido durante a exibição do filme e disse que a obra, muito longe de ser arte, deveria ser confiscada e queimada (assista ao vídeo).

Crime Delicado

Crime Delicado 
Beto Brant, Brasil, 2005


Denso e abrangente é Crime Delicado (Brasil, 2005), filme de Beto Brant baseado em romance de Sérgio Sant'Anna, de título semelhante (a única diferença é o artigo definido “um” que precede o nome do livro). A meu ver, este longa possibilita diversas interpretações, pois em nenhum momento ele cria verdades ou entrega informações precisas ao espectador. Portanto, neste texto irei relatar minhas impressões e idéias acerca das ambigüidades que esta magnífica obra audiovisual nos trás.

Como primeiro tema do filme, já presente no primeiro plano, está o jogo de poder que existe nas relações entre o homem e a mulher em nossa sociedade. Este primeiro plano é um cena teatral, que nos mostra uma freira falando sobre a libertação feminina. No plano seguinte, temos uma mulher participando de um ritual sadomasoquista, até que um psicanalista, seu marido talvez, entra em cena e condena tal ritual. Ao fazer isso, a mulher lhe acusa de traição, e a posição do psicanalista é a de tentar relativizar sua situação. Estes dois planos demonstram que o tema das relações do homem com a mulher estará presente durante todo o filme como um “jogo de poder”. Existem várias pequenas histórias que permeiam o longa que tem como centro esta relação: as peças teatrais, como esta do inicio; as três histórias que Antonio observa no bar (sendo que uma delas se trata de uma relação homossexual, porém com dois travestis representando a mulher); a relação de Antonio com a atriz; a relação do artista espanhol com Irene; a relação do artista com sua esposa; e a relação de Irene com Antonio.

Neste momento, posso voltar à diferenciação que fiz no inicio do texto sobre o título do livro com o do filme: ao retirar o artigo definido, a versão cinematográfica permite que ela seja interpretada como um filme que não fala somente de "um crime delicado“, mas de vários “crimes delicados” de nossa cultura. Dessa maneira, em cada uma dessas relações existe algum "crime delicado", seja ele moral ou real - mas o que está sempre em jogo é o que pode ou não ser considerado um crime dentro de nossa sociedade. Nas peças o crime é a traição e o exercício do poder masculino, mostrando sempre uma visão feminista do mundo (talvez seja por isso que Antonio não goste de nenhuma delas). Na primeira história do bar, a dos travestis, o crime poderia ser a prostituição. Na segunda, a conversa dos dois homens, é algo moral, talvez até religioso: um homem que se diz muito satisfeito com sua vida sexual, mas que se diz arrependido por que nunca teve filhos, ou seja, fez sempre sexo por prazer. Na terceira história do bar, há três crimes: a mulher, mesmo tendo namorado, olhar para outro homem; o namorado ficar completamente bêbado; e a mulher amar o homem, mesmo que ele a trate mal. Na relação de Antonio com a atriz, o crime é uma "prostituição moral": a troca de favores entre os dois se dando através do sexo. Na relação do artista com sua esposa há o "crime" da traição: o artista tem uma relação íntima com Irene, e também não acredita no amor (algo que fica implícito na conversa de Irene com Antonio no táxi). Na relação entre Irene e o artista há o crime do discurso como forma de poder: o (ab)uso de Irene como modelo para satisfazer os fetiches do espanhol. Por ultimo, temos a relação de Irene com Antonio onde há o "crime delicado" mais obvio e central do filme: o estupro.

Acredito que os dois últimos crimes sejam mais centrais e mereçam um debate mais aprofundado que os outros, por isso discorrerei sobre eles. O primeiro deles, que diz a respeito da relação entre Ines e o artista é bastante complexo: Ines possui uma deficiência física - não tem sua perna direita. Este fato nos induz a pensar que sua vida seja bastante difícil, que ela tenha sofrido preconceitos sociais, que tenha sido impedida de realizar algum desejo (como praticar um esporte ou dançar). Quando ela se torna uma modelo artística, vê uma possibilidade de ser importante, de ser o centro de uma obra, de ser o que ela nunca foi. Imaginamos que Ines aceite se submeter a qualquer situação para ser uma grande modelo, e é neste ponto que entra o papel do pintor espanhol. Para transformá-la em arte, os dois ficam nus e ele a pinta em um quadro onde estão supostamente fazendo sexo, quando na verdade não fizeram. Quando a obra fica pronta, ela chora, aparentemente por tristeza. Este choro pode ser interpretado assim: o pintor a “estuprou” moralmente, utilizando seu discurso artístico de autoridade social para justificar seu quadro. Esse discurso é explicitado ao final do filme, quando, olhando para a câmera, conta suas concepções sobre a arte. O espanhol diz que ela possui apenas uma deficiência, como todos os outros humanos, e que é somente isso; também diz que, ao estar nu pintando uma modelo também nua, os dois estão em posição de igualdade, pois os defeitos do artista e da modelo estão à mostra, como se quisesse despir os humanos dos aspectos culturais e sociais ques os atravessam. Esse discurso é, apesar de bonito, completamente falso, pois ele, por ser o produtor do olhar, tem mais poder que a modelo, podendo decidir o que quer ou não mostrar: em seu quadro é claro que Ines não possui uma perna, mas não se pode assumir que ele seja um idoso, que tenha cabelos brancos e pele enrugada; seu corpo é ainda pintado com indefinição, não se pode nem dizer que é ele que aparece no quadro, pois seu rosto não aparece. Ele ainda cria uma situação inexistente que é o sexo entre os dois. Mas, então, porque Irene não o denuncia e mostra pra todos que o pintor é um “estuprador” de sua moral? É fácil compreender suas motivações: mesmo não gostando, Irene se torna importante por estar neste quadro, é uma das poucas coisas que ela pode se destacar por não possuir uma perna, por isso que ela se sente tão ofendida por Antonio dizer que aquilo é somente pornografia. Se trata de dois julgamentos socio-morais de um mesmo ato, de uma mesma obra.

Já o segundo crime, que é o "crime delicado” que dá o nome ao livro, é o estupro. Supostamente Antonio estupra Ines, porém, apesar da cena ser mostrada, não é possível afirmar que ele realmente cometeu tal crime. Isso ocorre porque definir o que seria estupro é uma discussão que pode ser profunda e depende da ética pessoal e social de quem analisa o caso (é claro que se um sujeito obriga violentamente uma mulher a fazer sexo, há um estupro, mas não é esse o caso do filme). Na cena em que o crime pode ter acontecido, Ines e Antonio estavam discutindo sobre o quadro do espanhol, e ela pede para Antonio ir embora. Ele a pega pelo braço, a joga na cama, e inicia o ato sexual. Ela não grita, não faz nenhuma oposição verbal, talvez tenha havido oposição física, mas não se consegue saber o certo. Ele também não faz nenhuma ameaça verbal. Houve então estupro? Bom, se pensarmos pelo lado de Ines poderíamos dizer que ela estava assustada e não conseguiu gritar, ou tomar uma atitude maior, e de toda forma ela fez alguma oposição física; pensando pelo lado de Antonio, não ocorreu o crime, pois Ines não se opôs e ele não fez nenhuma ameaça. Quem vai julgar então o crime é o aparato legal do Estado, que é um indicador de certos valores e crenças culturais da sociedade. Só que, ao contrário das nossas expectativas, a decisão jurídica é omitida, fazendo com que o espectador reflita mais sobre o assunto e possa tirar suas próprias conclusões sobre o tema.

Outro assunto presente no filme é a relação do ser humano com suas deficiências, o tempo inteiro, Crime Delicado tenta exemplificar como temos dificuldade de apresentar nossos problemas para os outros. Isso é mostrado sob a perspectiva dos três personagens principais: a relação de Ines com a ausência de sua perna; a de Antonio com a solidão; e a de José Torres Campana com a velhice.

É bem claro na personagem de Ines sua dificuldade em lidar com a deficiência, ela se utiliza de uma perna mecânica, algo que mascara seu problema; ela se mostra bastante complexada com o fato de Antonio não dizer que a primeira coisa que reparou no seu corpo foi o defeito; para completar, em dificuldade em aceitar o quadro que explicita sua deficiência, pois, além de chorar, não tem coragem de visitar a exposição do espanhol. O final do filme mostra uma superação, por parte dela, com seu problema: ela vai à galeria onde está a pintura, deixa sua perna mecânica lá e vai embora, como se dissesse: “sou assim mesmo, e daí?”. Mas o que a leva a tomar tal atitude tão corajosa? Acredito que são vários os fatores: talvez perceber que Antonio gosta dela mesmo tendo uma deficiência (é sempre bom lembrar que a relação dela com o espanhol é fetichista, enquanto com Antonio é mais amorosa); talvez sua motivação seja o discurso do artista que diz que não ter uma perna não é nada demais, que o defeito é uma construção social - isso fica claro na seqüência em que Antonio e Ines tem uma relação íntima pela primeira vez, há dois planos que igualam a deficiência visual dele à física dela: ela precisa retirar suas muletas, e ele, os óculos.

Quanto a Antonio, ele é um sujeito solitário, despreendido da socidade, está sempre em um bar tomando whisky. Em nenhum momento aparece com algum amigo, e sua vida parece consistir em observar o mundo: assistir peças de teatros e observar a vida alheia. Ele é um sujeito sem atitude, é sempre ele que é convidado aos lugares, nunca conduz as conversas, é um personagem passivo (ele se assemelha muito com o espectador cinematográfico). Além disso, tem dificuldade de aceitar essa sua característica: oge da realidade com a bebida e não aceita que a atriz o chame de solitário. Contudo, Antonio também tenta superar seu problema: consegue ver que sempre viveu sua vida na terceira pessoa, e tenta passar a vivê-la na primeira; toma a atitude de ir à casa de Ines para conversar, e acaba cometendo o "crime delicado".

Já José Torres Campana possui uma relação diferente com seu problema: tem medo de morrer, mas nega isso. Em seu discurso do final do filme, parece ser um sujeito bem resolvido com a questão do envelhecimento, porém, o envelhecer é algo tão importante e tautológico em seu discurso que mostra como a morte é algo que o preocupa. Por outro lado, podemos dizer que ele é bem resolvido com essa condição inerente a todos mortais, pois consegue se expressar bem e tematizar através da arte aquilo que lho aflige.

De qualquer forma, o filme é repleto de ambiguidades culturais. Obriga-se que o espectador tome posição e formule suas teorias sobre cada personagem.

Indivíduos

O Céu Sobre os Ombros
Sérgio Borges, Brasil, 2010 

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=-lrU8yLQdMw&feature

O Filme “O Céu Sobre os Ombros”, de Sérgio Borges, conta a história de três pessoas que não se conhecem e vivem numa mesma cidade, e ambas compartilham de aspectos relacionados à cotidianidade, exoticidade e marginalidade.

Everlyn é uma travesti que fez mestrado sobre uma pessoa hermafrodita do século XIX. Dá aulas de sexualidade e se prostitui. Possui um amor virtual.

 
Fonte: Site oficial

Murari é um devoto da religião Hare Krishna e do time de futebol do Atlético Mineiro. Ex-pichador que se tornou monge.

 Fonte: Site oficial

Lwei é um africano descendente de portugueses que escreve vários livros ao mesmo tempo, sem chegar ao final de nenhum. Cogita suicídio.

 

Três pessoas tão diferentes que numa análise inicial, atrapalhariam um estudo antropológico de uma sociedade, Visto que Lwei passa grande parte de seu tempo sem usar roupas, Everlyn vive num espaço que se divide entre mulheres e homens e ela não é nenhuma das duas coisas, e Murari tenta se encaixar entre a realidade da sociedade em que vive e a realidade espiritual que participa. 

Mas ao definir quais são os passos de uma análise antropológica em “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, Malinowski fala sobre a importância de, após um estudo antropológico geral, é importante também estudar o indivíduo, o que ele pensa sobre a sua sociedade, como ela interfere na sua vida e provoca posicionamentos psicológicos. 

Acredito que é exatamente esse passo de Malinowski que Sérgio Borges segue. O filme não uniu essas três pessoas tão diferentes a toa. Apesar das diferenças, os três são pessoas em busca da sua identidade social, de um espaço, uma adequação, que passa inicialmente pela individualidade mas, como diria Max Weber, a individualidade sem uma consciência coletiva levaria à anomia. E mesmo que Lwei fale em suicídio, até mesmo ele passa seu tempo cultivando seu aspecto coletivo. (ele tem um filho deficiente que o visita com frequência e se encontra com amigos que os considera muito.) 

Everlyn é puro desafio da sociedade em que vive, mas é assustadoramente uma pessoa que busca integração social. Enquanto a sociedade em que vivemos condena o homossexualismo,a mudança de sexo e a prostituição, Everlyn estudou até o mestrado e defende intelectualmente todas as suas “abominações” com argumentos que cabem à nossa cultura, pois sua missão é se encaixar como uma mulher casada nessa sociedade. Se tivesse nascido do sexo feminino, Everlyn não teria toda a sua grandiosidade de lutar para ser “normal”. 

Murari, por sua vez, parece menos determinado que os outros dois “personagens”, pois parece ser passivo diante da dualidade “ser bem sucedido na vida” e “diluição do ego”. Murari apenas aceita e vive. 

Por fim, o filme nos faz considerar o quanto a sociedade em que vivemos é diversa, o quanto a individualidade invade a coletividade. E acredito que a maior importância dessa percepção é a busca de um reajuste cultural, que diminua a intolerância já incabível aos dias de hoje em que a individualidade se tornou muito mais expressiva ao longo do tempo.

10 de dezembro de 2011

Da megacidade às cidades fragmentadas

Zona do Crime
Rodrigo Plá, México, 2007


Uma cidade partida em duas. De um lado, o conforto de uma vida luxuosa daqueles que moram num condomínio fortificado. Do outro, para além dos muros e das grades eletrificadas, uma imensidão de casebres assinala um contraste tão marcante que permite depreender uma fragmentação do urbano não apenas espacial, mas, sobretudo, social. Dirigido por Rodrigo Plá, o longa-metragem “Zona do Crime” usa como argumento a cultura dos complexos residenciais fechados para discutir a falência de valores, a intolerância ao outro e a violência nas metrópoles. Baseada num conto homônimo escrito por Laura Santullo, esposa do diretor, a história se passa na Cidade do México, embora possa ser facilmente transposta para muitas outras cidades contemporâneas.

Fonte: MovieMail

“La Zona” é um condomínio monitorado por câmeras de segurança e rodeado por favelas. Numa noite chuvosa, três jovens pobres invadem a propriedade e, ao tentar assaltar uma das residências, acabam assassinando a moradora. Após uma troca de tiros com os guardas do condomínio, Miguel (Alan Chávez), de apenas 16 anos, é o único que consegue escapar vivo e esconder-se. Frente ao sumiço do garoto e ao perigo que representa para as famílias que ali vivem, os condôminos reúnem-se para resolver o que fazer, divididos entre chamar a polícia ou capturar por conta própria o assaltante. Decididos a impedir que o incidente comprometa a autonomia dada ao condomínio pelo Estado, os moradores iniciam as buscas por Miguel, agora prisioneiro de um local que parecia ser a promessa da proteção.

Fonte: MovieMail

Desde a sequência inicial, é perceptível a disparidade entre duas realidades limítrofes. Os vidros do carro impecavelmente novo que trafega pelas ruas de “La Zona” refletem uma cidade atrás dos muros, afastada pelos arames farpados. A fotografia contrastante ajuda a reforçar as diferenças entre esses dois mundos. As imagens limpas e higiênicas do condomínio opõem-se a uma favela suja e escura, que enclausura o núcleo de abundância como se estivesse prestes a fagocitá-lo. A barreira de concreto ergue-se, então, como instrumento de segregação, motivado pelo medo do crime e da violência lá fora. Por meio de câmeras de vigilância, espreita-se atentamente qualquer tentativa de “contaminação”. Da escola ao cemitério, os moradores têm sua própria cidade sitiada.

A busca por alternativas privadas de segurança parece surgir como consequência da descrença nas instituições oficiais encarregadas de manter a ordem. Para os moradores, uma polícia corrupta e um sistema judiciário incompetente são incapazes de resolucionar os conflitos e as tensões urbanas. Por isso, tomam para si a tarefa de manter seu reduto intocável. Quando os guardas armados e os dispositivos de vigilância mostram-se insuficientes, é preciso fazer justiça com as próprias mãos e “caçar” o culpado ─ ainda que essa culpa lhe seja incontestavelmente imposta, tolhendo o direito à voz e a um julgamento justo. Por meio de um conselho deliberativo, resolvem omitir a polícia para o bem de todos. Afinal, “La Zona” tem as próprias regras e a própria força de repressão contra as impurezas que ali tentam penetrar. A justificativa vem na forma de legítima defesa. A culpa está sempre do lado de fora.

As poucas oportunidades que Miguel tem para contar sua versão dos fatos surgem quando o jovem conhece Alejandro (Daniel Tovar) ao esconder-se no porão de sua casa. É esse, enfim, o momento de humanização do personagem. Em contraponto aos amigos, que reproduzem o discurso de condenação a toda e qualquer alteridade divergente daquela sociedade elitista, Alejandro, também de 16 anos, descobre em Miguel uma realidade que, apesar de diferente, não é inimiga. Ao ouvir o que realmente aconteceu na noite chuvosa em que os três garotos invadiram “La Zona”, o adolescente tem seu primeiro contato com o outro mundo, passando a questionar os valores que lhe são incutidos desde criança: em lugar da tolerância, a discriminação e o distanciamento social devem ser as soluções em prol de uma vida segura. 

Aconselhado por Alejandro, Miguel tenta, em vão, fugir do condomínio, deparando-se com cercas e muros por todos os cantos. “La Zona” é sua prisão, onde será julgado e condenado. O menino admite a culpa. Roubou, mas não matou ninguém. Talvez mereça ir para a cadeia, mas não deseja o mesmo destino que os dois amigos tiveram, cujos corpos foram jogados no lixo, como se fossem dejetos poluentes. No auge de seu desespero, corre atrás do carro da polícia em busca de ajuda. No entanto, o mesmo sistema policial, a princípio, taxado de ineficaz serve, agora, aos propósitos dos moradores. Após comprar o descaso das autoridades, eles estão livres para fazer a própria justiça, negando ao garoto qualquer chance de regeneração. O comandante Rigoberto (Mario Zaragoza), última esperança nesse sistema corrompido, ainda tenta interceder por Miguel, pois “ele é só uma criança”, mas acaba vencido por forças mais poderosas. “Salve-o agora e teremos um assassino”, ordena o delegado corrupto, que recebeu dinheiro em troca de silêncio.

A sequência final desconstrói, por completo, o discurso de segurança emoldurado ao longo do filme, transformando-o num discurso de violência. Perseguido pelos moradores, Miguel é linchado até a morte. Frente à falência do Estado, a violência aparece justificada pela segurança. Mata-se em nome da proteção e da justiça ─ uma justiça deturpada pelos valores do grupo dominante. Supõe-se uma culpa, que não precisa ser comprovada para fundamentar a intolerância ao outro. “La Zona”, construída como barreira ao perigo, acaba por tornar-se a epítome da brutalidade. Talvez Alejandro seja um dos únicos a conseguir abolir as fronteiras da segregação. Após o episódio, o jovem procura o corpo de Miguel no lixo, descartado tal quais seus amigos. Leva-o até um cemitério fora do condomínio na tentativa de lhe oferecer alguma dignidade. A narrativa, que se desenvolve quase inteiramente dentro do complexo residencial, ganha as ruas da favela.

A cidade fragmentada de “Zona do Crime” trabalha as tensões urbanas em torno do medo e da negação do outro. A segregação espacial e social tornou-se um traço característico do comportamento humano nas metrópoles, levando a um abandono da esfera pública em prol de uma vida privada mais segura. O muro que rodeia “La Zona” serve, assim, de metáfora para as barreiras erguidas diariamente nos centros urbanos, sejam elas reais ou imaginárias. O enclave fortificado reflete o enfraquecimento das relações interpessoais e a intolerância do homem contemporâneo. Como método de combate às ameaças, uma cidade vigiada insinua-se dentro de uma megacidade multicultural, na tentativa de ordem e controle. No entanto, o medo que se tem pelo outro produz muito mais do que a exclusão. Conduz à desestabilização de valores e à violência. No filme, o conflito final é um combate a toda e qualquer heterogeneidade capaz de “contaminar” uma minoria que se vê como homogênea.

9 de dezembro de 2011

Falar sobre cinema e antropologia

Arte, dispositivo e construção social. Frente à tarefa de construir na tela uma realidade que seja verossímil ao  espectador, o cinema inscreve-se em subjetividades, que reproduzem valores e visões de mundo de um determinado grupo social. Enquanto realização coletiva, a obra cinematográfica é a expressão do pensamento de uma sociedade ─ um registro imagético e sonoro extremamente rico, capaz de revelar aspectos de uma cultura.

Justamente por configurar uma versão mediada de um universo sócio-ideológico, acreditamos que o cinema constitui um campo fértil para a reflexão em torno das identidades sociais, a partir de uma percepção antropológica. O objetivo deste espaço é, portanto, pensar as relações entre cinema e antropologia, tomando como ponto de partida a análise de filmes que incitem o debate acerca das relações de alteridade e nos levem em direção ao outro.

Da cinematografia nacional à estrangeira, as produções abordadas aqui não são especificamente etnográficas, mas sim produções convencionais, exibidas nas salas de cinema para um público que extrapola o acadêmico. O critério empregado na escolha das obras pauta-se, sobretudo, no gosto pessoal de cada autor, cujas empatias e afinidades com determinado filme parecem não apenas facilitar sua leitura, como também instigar a reflexão. 

Como um olhar pessoal feito por três estudantes do curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), as proposições desenvolvidas aqui não devem ser consideradas sob um enfoque totalizante, estanque e inflexível. Ao contrário, constituem propostas muito mais preocupadas em fomentar o debate, do que em encerrá-lo.